sexta-feira, 24 de junho de 2011

Sinta-se bela, Anabella.



Sua maquiagem estava impecável como sempre. O seu batom rosa era ofuscante na sua pele pálida. Ela comeu, se arrumou, ajeitou seu cabelo e saiu de casa. Era sempre isso, e ela estava cansada de tão monótono que era aquilo tudo. Ela ficava indignada com a frieza das pessoas de não se olharem e nem desejarem um "Bom dia!", eram todos frios como as paredes pintadas de Branco Gelo. Ela não se impressionava mais com as pessoas competindo, nem com a compra de cargo. Ela se matava de trabalhar naquele escritório para depois... Ah, não ser reconhecida. Ela também suplicava para as pessoas dizerem que há pertencia numa noite qualquer.

Ela queria ver como era o mundo, e os sentimentos de verdade.
Ela precisava aprender a voar.

Enquanto voltava para casa começou a chover, ela foi andando só por vontade. Naquele dia ela estava entediada de ficar na marquize e queria ir na chuva. Sentiu cada gota escorrer pela sua pele cor de neve. Ela gostava de como o som do seu salto quando batia no asfalto era ensurdecedor, para outras pessoas, claro. Ela não tomou o seu capuccino de rotina, o garçom até que sentiu a sua falta. Ela não foi tomar o famoso chopp das sextas-feiras, os colegas bem que tentaram. Naquela noite, as tão amadas avenidas de São Paulo estavam pequenas demais para a vontade dela. Os seus olhos estavam negros como o céu, ela estava como um predador a procura da sua presa. Mas ali, na selva de pedra ela não sabia quem atacar. Ela andava cada vez mais rápido, não queria multidões, nem falsidade pairando no ar. Ela queria se trancar no seu apartamento, ver um cigarro se queimando e o conhaque no copo.

E foi assim que ela fez, trancando a porta de seu apartamento e ligando a vitrola. Ela estava empoeirada, porque digamos, ela não tinha tempo. E escolher o vinil era a sua parte preferida. Elvis Costello, era o que ela iria ouvir. Se serviu do seu melhor conhaque e se dirigiu ao porta-cigarros vermelho vivo, que era companheiro de todos os dias de angústia. Um copo de conhaque, um cigarro
 na sua mão e o cinzeiro. Era o que ela tinha apoiado no para-peito de sua janela. Ela morava na Avenida Paulista, onde dava para ver carros indo e vindo, e de madrugada... Histórias tendo mais um capítulo que seria apagado com cinzas e alcóol. Deus, por que criastes as pessoas tão frias? Anabella era bela porque sabia rezar. Mas incrédula ela desacreditou. Sua vida não seria feita de pequenos casos, com desculpas de ter que acordar cedo para não adormecer em camas estranhas se alguém cuidasse dela. Ele. 


No seu quinto copo de conhaque, ela se debruçava-se para ver a rua, as vidas, as pessoas e os sentimentos. Depois disso aqui, eu posso conhecer algo maior? Quanto tempo leva? Dói muito? Coragem menina, é tão fácil de descobrir. Ana... Nessas horas se deve esquecer o Bella... Se viu de braços abertos, chorando incessantemente e sentindo o vento a acolher. Um borrão, na sua maquiagem que fazia dela indestritível se fez. Naquela noite Anabella aprendeu a voar, mas ela desacreditou. Não era mais tão Bella assim. O chão ficou marcado com a sua queda, o seu cigarro ainda estava pela metade e faltou um ou dois copos para sua garrafa de conhaque acabar e ela nem ouviu o vinil de seu ídolo por inteiro. Ela quis assim. Não ouve lágrimas de outras pessoas, ela apenas tirou a dúvida que mais a intrigava no mundo todo. Ela conheceu novos sentimentos em questão de minutos, lembrou de coisas que jamais acharia que lembraria. Até do menino da 2° série que sentava há duas carteiras depois da dela.

Anabella aprendeu a voar. Aprendeu a se amar. Aprendeu a descobrir. Viver.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua opinião é importante, e lembre-se que existe o respeito acima de tudo!